segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Porque o facebook é uma tragédia...

O facebook é engraçado, para nao dizer que é uma tragédia. A sequencia é essa:

1. Há uma demanda enorme por contato humano (= solidão).

2. As pessoas postam na esperança que os outros curtam ou comentem (= querem solidariedade, conexão, EMPATIA).

3. Nunca é suficiente, o buraco negro nao fecha - entao elas postam mais, publicam mais e acabam se TRANSFORMANDO em personagens que julgam ser mais interessantes para ganhar mais comentários e curti´s.

Só que o buraco negro nao fecha, continua ali, porque se é um personagem nunca vai haver conexao e a solidão só aumenta!! Nao é um mecanismo perverso?

Continuo achando que a melhor definição de facebook é este poema do Bukowski, escrito muito antes dessa bobagem toda... vou postar mais uma vez...


“Os gênios da multidão”, de Charles Bukowski
Charles Bukowski | Tradução de Alice Dias
há traição, ódio, absurda violência nos seres humanos normais
que podem alimentar qualquer exercito por
todos os dias
e
os melhores entre os assassinos são os que rezam contra o homicídio
os que mais odeiam são aqueles que pregam o amor
e os que mais guerreiam são os que pregam a paz do Senhor
cuidado com os pregadores
cuidado com os sábios
cuidado com aqueles que estão sempre a ler os livros
cuidado com os que ao mesmo tempo que odeiam a pobreza
com orgulho festeja-a
cuidado com os afoitos bajuladores
que precisam de elogios recíprocos
cuidado com aqueles que adoram rapidamente censurar
eles tem medo do que não sabem pensar
cuidado com os que procuram constantemente multidões
porque tem medo de ficarem sós
cuidado com os homens e as mulheres normais
cuidado com seus amores normais
que exigem normalidade
mas há talento no ódio deles
suficiente para matar vocês
matar qualquer um
não querendo solidão
não entendendo a solidão
eles tentarão destruir qualquer coisa
que deles se difere
não sendo capazes da arte criar
não podem entendê-la
consideram sua falha como criadores
como uma falha do mundo inteiro
não são capazes de se entregarem ao amor
eles acreditam que o amor doutros é incompleto
eles então vão te odiar
e o ódio deles será perfeito como
um diamante brilhante
como uma lâmina
como uma montanha
como um tigre
como venenosa planta
o ódio é para eles a mais nobre arte

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

“The Wall” – Sobre os muros que erguemos

“Mother, should I build the wall?” R.Waters

Quando criança/adolescente eu assisti ao trecho clássico em forma de clip do “The Wall” em que tocava “We don´t need no education” na MTV. Lembro da gente batucando e sussurando isso nas carteiras de colégio no 2º grau. A primeira vez que passou o filme inteiro na TV eu fiquei até 2, 3 da manhã tentando gravar em um VHS – para tempos depois descobrir que meu irmão tinha gravado um programa sobre aviões encima. Depois não assisti mais.

Fim de semana retrasado, com chuva, sozinha em casa e sem ter o que fazer resolvi assistir novamente. E entendi de um jeito diferente do que há 15, 20 atrás. Na primeira vez em que vi o filme eu achei que Pink foi uma vítima do sistema, de todo mundo e não tinha entendido porque ele não destruiu todos no final – no melhor estilo daquelas explosões catárticas de filmes de ação. Só o muro explodiu e eu fiquei esperando a continuação, que não veio. Naquele tempo – seja pela inocência da idade ou por ser madrugada em um dia de semana que tinha aula na manhã seguinte – teve um personagem que escapou desapercebido: O próprio muro.

Pink se sentiu magoado com o pai ausente, com a mãe superprotetora, com o professor e construiu o muro dentro de si. Isolou-se para se proteger e perdeu a capacidade de se comunicar, de sentir amor e demonstrar afeto. O muro foi ele que construiu. Ele não era somente uma vítima de todos, mas principalmente dele mesmo.

Tenho impressão que há cada vez menos empatia e mais indiferença. Que as pessoas amam e protegem suas famílias mas se tornam psicopatas em relação aos que estão fora deste pequeno círculo, achando que assim estão protegendo este pequeno núcleo. Carinhosas com seus filhos e amigos porém aos berros e ameaças nos acidentes de trânsito, indiferentes aos colegas de trabalho (quando não estão os caçoando ou sabotando). Como aqueles evangélicos que pregam que Deus é amor e são ótimos em suas comunidades mas desprezam ou gritam com os ateus.

Cada vez mais contruimos mais muros e menos pontes. Empatia nesta sociedade doente é sinônimo de feminilidade e fraqueza, enquanto os fortes e indiferentes são aplaudidos por serem bravos conquistadores de metas, guerreiros.

E então entra o toque genial do R. Waters, com as cenas sobre o facismo. Não somente foi o facismo que levou o pai dele durante sua infância, contudo é o facismo o ponto máximo desta indiferença em relação ao outro - conseqüência dos muros psicológicos que construímos para nos proteger.

A cena em que ele passa da apatia a destruição do quarto é fabulosa.  Toda mágoa acumulada e a raiva por não conseguir canalizar seus sentimentos se transforma em uma sequência apavorante de quebra-quebra.

Eu fico na dúvida se quando o muro explode no final do filme é essa explosão de raiva acumulada ou uma metáfora de que ele vai conseguir se comunicar.

Gostaria de acreditar na segunda, mas acho que foi só a primeira. E que é questão de tempo para o muro se reconstruir e explodir novamente. E novamente. E novamente.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Um dia

Um dia eu troco
A vitamina C por uísque, tequila, cerveja
A comida saudável pela gostosa
A roupa correta pela confortável
O sapato apertado por andar descalça
A cara séria pela gargalhada
O livro chato pelo legal
As idéias alheias pelas minhas
A luz fluorescente pelo sol
Essa parede opaca por uma vista arrebatadora
Os insipientes pelos que amo.

Até lá
Vamos vivendo de migalhas.
Fragmentos
De uma manhã gloriosa.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Zero a zero, sabichão.

Se Deus existe, naquele formato de barbas brancas e nuvens, em 2011 ficamos ”empatados”.
Ele levou alguém que eu gostava muito (padrinho do meu irmão) mas mandou outra pessoa que também gosto demais (Joãozinho!).
Não quero dizer que uma pessoa substitui a outra, longe disso; cada um que parte deixa saudade, ternura e boas lembranças. E cada um que chega traz esperança.
É que você sabe que está ficando velho quando recebe mais telefonemas convidando para velórios do que para batizados. Quando vai diminuindo o número de festas de casamentos e formaturas  e aumentam as notícias de pessoas doentes ou tristes.
Ano passado não conquistei nada, não progredi em nada, não emagreci nem fiz nada grandioso ou heróico. Trabalhei demais, não dei a atenção que muitas pessoas queridas mereciam e não fiz nada para mudar meus maus hábitos.
Se quando não somos apenas existimos, às vezes simplesmente existir com alguma dignidade já é uma vitória. E acho que foi um ano bom por não ter sido ruim.
Não faço grandes planos para 2012. Quero terminar o SESC, ver o show do Waters e se o mundo acaba em dezembro com o calendário Maia.
E tomara que o placar seja mais favorável a mim desta vez.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

aeroporto de guarulhos


é sempre um passeio inusitado

as criancinhas choram
as mães choram
as meninas choram
os namorados choram
a saudade e' de quem fica
(com saudade?)
eu quase choramingo quando vem a conta do restaurante
do hamburguer frio ou do sashimi congelado

so nao chora a mocinha do embarque quando gritam com ela
talvez por dentro ela chore
seria legal se ela esmurrassem um desses marmanjos
eles bem que merecem

o mesmo ladrilho verde dos banheiros
uma vez troquei de roupa ali, muito rapido
e sai correndo para meu voo
tinham vomitado em mim
nao entendo pessoas que enjoam em avioes

um bom conselho de companhia aerea seria
" nunca despache toda sua roupa
nem que a camiseta que sobre na mochila seja usada
voce nunca sabe quando vai ver sua mala novamente
ou se vao acertar voce ao inves do saquinho de papel" .

o portao 1 deveria se chamar ' RD = randomico domestico'
quem enconstar primeiro leva a galera
florianopolis, manaus, nao importa
sempre o mesmo clima de vespera de revellion na rodoviaria

sempre as mesmas sacolinhas do duty free
sempre as pessoas enlouquecendo comprando o que nao precisam
errando nas contas a seu favor e se justificando "ta muito barato"
nao, nao esta barato tia. nao mente para mim, nem para voce.

sempre tem uns chinas que tentam entrar pelo portao errado
sempre tem alguem gritando por um " MR Fulanow"  que se perdeu
sempre tem 4 ou 5 que perdem o voo
e a comissaria histerica ameaca "ULTIMA CHAMADA"
como disesse "seus merdas, eu vou esfolar voces, quero ir para casa"
todos queremos, querida
estampado no rosto estranho e perdido de cada um
sentado no corredor frio, na escada fria ou na cadeira desconfortavel  
queremos todos ir para casa.

a copa vai ser " lindo" 
ja dizia uma doida amiga minha

a unica coisa de que sinto falta
é daquela voz sexy que anunciava os voos
aquele timbre inconfundivel
que apaixonava os solitarios.
parecia a vilã do filme do James Bond em camera lenta

era o unico resquicio de calma naquele hospicio.

hey, voz amiga, diga que vai dar tudo certo
estou precisando ir para casa.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Natal, de novo. Mas nada novo.

Atendendo a pedidos, republico abaixo um texto antigo - readaptado.

Na verdade vem bem com o momento mesmo. Não gosto de Natal.

Quando eu era criança a expectativa encima dos presentes era opressora - se eu ganhar o que eu pedi quer dizer que eles me amam; se eu nao ganhar quer dizer que nao gostam de mim. Claro que eu ganhava mais ou menos o que eu pedia, mas a ansiedade era tão grande, o peso dessa "sentença" me deixava doida. Em um ano que eu achei que nao ia ganhar o que pedi (porque a caixa era muito grande) quase tive uma crise histérica de choro. Tadinha da minha mae, nao entendeu nada.

Outra coisa que me incomoda é sentir que tenho dificuldade em me conectar com a família. Não sei explicar.Nao consigo estar genuinamente feliz em estar ali - porque tudo parece forçado. Por que uma refeição em conjunto seria harmoniosa e saltittante se a maioria das outras 50-70 que tivemos durante o ano  acabaram em discussões, indigestão e mal-estar? E se ninguem ali frequenta assiduamente algum culto religioso, por que fingir que se importam e deixar todos desconfortáveis rezando antes de comer? Não chega a ser hipocrisia porque nao é racional; é querer ser algo que não se é de verdade.

Não vou entrar em detalhes na questão dos presentes para não parecer sovina. Mas sempre me assustou quanto as pessoas gastam em presentes. Parece que quanto maior a distância emocional entre as pessoas maior o preço do que elas compram - e menor o valor que o presente tem. Preço é o que vem na fatura do cartão, valor é o sentimento de quem recebe. Os presentes hoje tem muito preço e pouco valor, porque as pessoas não se conhecem.

Natal é uma bosta. E é verdade que eu nao compro decoração de Natal - só bolos, biscoitos e comidinhas - porque ninguem me tira da cabeça que foram criancinhas chinesas que fizeram tudo aquilo.

Estou ficando velha muito rápido. Uma versao ranzinza de um Bukowski  com acesso a internet.

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15/07/2011

Assisti "Melancolia", de Lars von Tries. Um filme fabuloso. Deixa "Árvore da Vida" como trabalhinho de final de curso. Pena que quem vai levar o Oscar é este, nao aquele.
“Em 1915, Freud comparou a melancolia ao luto. Segundo ele, ´ambos provocam uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo exterior, a perda da capacidade de amar e a inibição de toda a atividade´. A diferença seria que, enquanto o luto é a dor pela perda de alguém ou algo, o melancólico se ressente da perda do ´eu´ , o que também traria uma diminuição da auto-estima.” Revista Superinteressante
(http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_433090.shtml)
O conceito de “luto por si mesmo” é fantástico. Partindo do princípio que a vida é regida pelo que consideramos importante, não somente o que esperam de nós, será o melancólico uma vítima de assassinato psíquico? Destruíram o que lhe era caro e agora ele amarga o negro amargo luto por si mesmo?
Há muitos anos eu sonhei que entrei em um quarto escuro, sinistro. Havia um corpo inerte no chão. Aproximei-me e percebi que era eu mesma. Então me abaixei, afaguei o cabelo do meu eu falecido e disse algo como “tadinha de você... só precisava de alguém que lhe entendesse...” Sempre lembro deste sonho macabro como um memento – “você tem que defender seus sentimentos, pois ninguém vai fazer isso por você. Pelo contrário, quando tiverem uma chance os outros vao passar por cima de voce como um rolo compressor”.
Para certa parcela das pessoas (principalmente BP - Beautiful People, tambem conhecidas como Piriguetes) esmagar os sentimentos dos outros não é crime. É até bacana, sinal de ser um vencedor, imbatível. Mas ser triste é pecado. Em que momento doentio que houve essa inversão social, esse “bullying sentimental” aplaudido de pé ?
Em uma sociedade em que é obrigatório ser feliz -  e pior - constantemente feliz - melancolia é crime. É contagioso e as pessoas se afastam. Então o melancólico, além de triste, sente a rejeição dos outos -  e se sente culpado por isso. Então omite o que sente. Ou compra uma caixa de prozac. 
Então assim se configura um crime quádruplo - a pessoa é ferida em seus sentimentos, pois ninguem a defende;  sofre o luto por si mesma sozinha; e, ainda por cima, é acusada de responsável por seu estado e rejeitada socialmente pelos outros.
É um mundo muito malvado, mesmo, este que vivemos.