“Mother, should I build the wall?” R.Waters
Quando criança/adolescente eu assisti ao trecho clássico em forma de clip do “The Wall” em que tocava “We don´t need no education” na MTV. Lembro da gente batucando e sussurando isso nas carteiras de colégio no 2º grau. A primeira vez que passou o filme inteiro na TV eu fiquei até 2, 3 da manhã tentando gravar em um VHS – para tempos depois descobrir que meu irmão tinha gravado um programa sobre aviões encima. Depois não assisti mais.
Fim de semana retrasado, com chuva, sozinha em casa e sem ter o que fazer resolvi assistir novamente. E entendi de um jeito diferente do que há 15, 20 atrás. Na primeira vez em que vi o filme eu achei que Pink foi uma vítima do sistema, de todo mundo e não tinha entendido porque ele não destruiu todos no final – no melhor estilo daquelas explosões catárticas de filmes de ação. Só o muro explodiu e eu fiquei esperando a continuação, que não veio. Naquele tempo – seja pela inocência da idade ou por ser madrugada em um dia de semana que tinha aula na manhã seguinte – teve um personagem que escapou desapercebido: O próprio muro.
Pink se sentiu magoado com o pai ausente, com a mãe superprotetora, com o professor e construiu o muro dentro de si. Isolou-se para se proteger e perdeu a capacidade de se comunicar, de sentir amor e demonstrar afeto. O muro foi ele que construiu. Ele não era somente uma vítima de todos, mas principalmente dele mesmo.
Tenho impressão que há cada vez menos empatia e mais indiferença. Que as pessoas amam e protegem suas famílias mas se tornam psicopatas em relação aos que estão fora deste pequeno círculo, achando que assim estão protegendo este pequeno núcleo. Carinhosas com seus filhos e amigos porém aos berros e ameaças nos acidentes de trânsito, indiferentes aos colegas de trabalho (quando não estão os caçoando ou sabotando). Como aqueles evangélicos que pregam que Deus é amor e são ótimos em suas comunidades mas desprezam ou gritam com os ateus.
Cada vez mais contruimos mais muros e menos pontes. Empatia nesta sociedade doente é sinônimo de feminilidade e fraqueza, enquanto os fortes e indiferentes são aplaudidos por serem bravos conquistadores de metas, guerreiros.
E então entra o toque genial do R. Waters, com as cenas sobre o facismo. Não somente foi o facismo que levou o pai dele durante sua infância, contudo é o facismo o ponto máximo desta indiferença em relação ao outro - conseqüência dos muros psicológicos que construímos para nos proteger.
A cena em que ele passa da apatia a destruição do quarto é fabulosa. Toda mágoa acumulada e a raiva por não conseguir canalizar seus sentimentos se transforma em uma sequência apavorante de quebra-quebra.
Eu fico na dúvida se quando o muro explode no final do filme é essa explosão de raiva acumulada ou uma metáfora de que ele vai conseguir se comunicar.
Gostaria de acreditar na segunda, mas acho que foi só a primeira. E que é questão de tempo para o muro se reconstruir e explodir novamente. E novamente. E novamente.
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