Na verdade vem bem com o momento mesmo. Não gosto de Natal.
Quando eu era criança a expectativa encima dos presentes era opressora - se eu ganhar o que eu pedi quer dizer que eles me amam; se eu nao ganhar quer dizer que nao gostam de mim. Claro que eu ganhava mais ou menos o que eu pedia, mas a ansiedade era tão grande, o peso dessa "sentença" me deixava doida. Em um ano que eu achei que nao ia ganhar o que pedi (porque a caixa era muito grande) quase tive uma crise histérica de choro. Tadinha da minha mae, nao entendeu nada.
Outra coisa que me incomoda é sentir que tenho dificuldade em me conectar com a família. Não sei explicar.Nao consigo estar genuinamente feliz em estar ali - porque tudo parece forçado. Por que uma refeição em conjunto seria harmoniosa e saltittante se a maioria das outras 50-70 que tivemos durante o ano acabaram em discussões, indigestão e mal-estar? E se ninguem ali frequenta assiduamente algum culto religioso, por que fingir que se importam e deixar todos desconfortáveis rezando antes de comer? Não chega a ser hipocrisia porque nao é racional; é querer ser algo que não se é de verdade.
Não vou entrar em detalhes na questão dos presentes para não parecer sovina. Mas sempre me assustou quanto as pessoas gastam em presentes. Parece que quanto maior a distância emocional entre as pessoas maior o preço do que elas compram - e menor o valor que o presente tem. Preço é o que vem na fatura do cartão, valor é o sentimento de quem recebe. Os presentes hoje tem muito preço e pouco valor, porque as pessoas não se conhecem.
Natal é uma bosta. E é verdade que eu nao compro decoração de Natal - só bolos, biscoitos e comidinhas - porque ninguem me tira da cabeça que foram criancinhas chinesas que fizeram tudo aquilo.
Estou ficando velha muito rápido. Uma versao ranzinza de um Bukowski com acesso a internet.
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15/07/2011
Assisti "Melancolia", de Lars von Tries. Um filme fabuloso. Deixa "Árvore da Vida" como trabalhinho de final de curso. Pena que quem vai levar o Oscar é este, nao aquele.
“Em 1915, Freud comparou a melancolia ao luto. Segundo ele, ´ambos provocam uma depressão profundamente dolorosa, uma suspensão do interesse pelo mundo exterior, a perda da capacidade de amar e a inibição de toda a atividade´. A diferença seria que, enquanto o luto é a dor pela perda de alguém ou algo, o melancólico se ressente da perda do ´eu´ , o que também traria uma diminuição da auto-estima.” Revista Superinteressante
(http://super.abril.com.br/superarquivo/2006/conteudo_433090.shtml)
O conceito de “luto por si mesmo” é fantástico. Partindo do princípio que a vida é regida pelo que consideramos importante, não somente o que esperam de nós, será o melancólico uma vítima de assassinato psíquico? Destruíram o que lhe era caro e agora ele amarga o negro amargo luto por si mesmo?
Há muitos anos eu sonhei que entrei em um quarto escuro, sinistro. Havia um corpo inerte no chão. Aproximei-me e percebi que era eu mesma. Então me abaixei, afaguei o cabelo do meu eu falecido e disse algo como “tadinha de você... só precisava de alguém que lhe entendesse...” Sempre lembro deste sonho macabro como um memento – “você tem que defender seus sentimentos, pois ninguém vai fazer isso por você. Pelo contrário, quando tiverem uma chance os outros vao passar por cima de voce como um rolo compressor”.
Para certa parcela das pessoas (principalmente BP - Beautiful People, tambem conhecidas como Piriguetes) esmagar os sentimentos dos outros não é crime. É até bacana, sinal de ser um vencedor, imbatível. Mas ser triste é pecado. Em que momento doentio que houve essa inversão social, esse “bullying sentimental” aplaudido de pé ?
Em uma sociedade em que é obrigatório ser feliz - e pior - constantemente feliz - melancolia é crime. É contagioso e as pessoas se afastam. Então o melancólico, além de triste, sente a rejeição dos outos - e se sente culpado por isso. Então omite o que sente. Ou compra uma caixa de prozac.
Então assim se configura um crime quádruplo - a pessoa é ferida em seus sentimentos, pois ninguem a defende; sofre o luto por si mesma sozinha; e, ainda por cima, é acusada de responsável por seu estado e rejeitada socialmente pelos outros.
É um mundo muito malvado, mesmo, este que vivemos.
Sobre o post natalino: sensacional sua constatação "Os presentes hoje tem muito preço e pouco valor, porque as pessoas não se conhecem". Além disso, sinceramente nunca tinha percebido o potencial opressor da data. Sou uma entusiasta das reuniões sociais, familiares, corporativas etc (bebida, comida, música e conversa é comigo mesmo!). Mas você tem toda razão, tanto as crianças se sentem julgadas, como os adultos, forçados a adotar uma determinada conduta. Faltou mencionar a simbologia importada dos países ricos, onde faz frio esta época do ano.
ResponderExcluirSobre os filmes: assisti "Melancolia" e "Árvore da Vida" a linguagem dos dois aponta para algo como um neomedieval, não? Uma linguagem imagética independente da narrativa linear, como era feito na idade média quando as pessoas não sabiam ler e os pintores utilizavam as imagens fantásticas e diabólicas para tratar dos vícios, dos pecados e dos temores que afligiam o homem medieval. Durante a belíssima introdução de Melancolia, não me saiam da cabeça os trípticos de El Bosco (Jeroen van Aeken).
ResponderExcluirhttp://t3.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTl5wXG5sm7lVUhF_Qeu42hWNfPdl7dQNOlwH-QzdcuE7_zbsPo0g
http://t2.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcTcSHr0ZsF72c8Usi9P1G99W6I1dcDy4FIB3cQQbheu2vDowe8U